Os piores abusos da pecuária industrial |
Falta de bem-estar animal na pecuária industrial
Introdução
A pecuária industrial, também conhecida como pecuária intensiva, é uma parte importante da agricultura moderna, mas ao mesmo tempo levanta muitas questões éticas sobre o bem-estar animal. Nesta indústria, os animais são criados e mantidos sobretudo com o objetivo de obter a maior produção no menor tempo possível. Por isso, a maioria dos animais passa a vida em condições que estão longe de ser naturais para eles. O que conta neste setor é a eficiência e o lucro, o que muitas vezes deixa o bem-estar animal em segundo plano.
A vida de um animal na pecuária industrial é geralmente curta e sem qualquer oportunidade de mostrar o seu comportamento natural. Os animais são muitas vezes mantidos em espaços apertados e artificiais, onde a sua liberdade de movimento é limitada e as suas necessidades sociais e naturais são em grande parte ignoradas. A pressão constante para crescerem depressa e serem abatidos o mais cedo possível faz com que estes animais raramente cheguem à sua esperança de vida natural. A sua existência é marcada pela falta de espaço, de ar fresco e de contacto social, fatores essenciais para o seu bem-estar.
Neste contexto, é importante refletir sobre o que significa impedir os animais de mostrarem o seu comportamento natural. Tal como os seres humanos, os animais precisam de explorar o ambiente, de criar laços sociais e de se desenvolverem física e mentalmente. A pecuária industrial priva-os destas oportunidades. O resultado é uma vida cheia de stress e frustração e, por fim, uma morte prematura. Esta realidade levanta questões fundamentais sobre a forma como tratamos os animais e o valor que damos ao seu bem-estar em busca do lucro económico.
Abusos por espécie animal
Nesta página, os abusos estão organizados por espécie animal, com números de Portugal e do Brasil. O que pode fazer contra a pecuária industrial.
Índice de temas
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Os porcos
Em 2025 foram abatidos cerca de 5,5 milhões de porcos em Portugal. No Brasil foram 60,7 milhões, um recorde. A grande maioria vive em pavilhões fechados, sobre pavimentos gradeados por onde caem os excrementos. Respiram o dia inteiro o amoníaco do chorume. O pavimento gradeado fere-lhes as patas.
A lei exige pouco. Na União Europeia, um porco de engorda de 85 a 110 quilos tem direito a 0,65 m², menos de um metro quadrado durante toda a vida. Tem de haver pelo menos 40 lux de luz durante oito horas por dia.
Os porcos não conhecem nada fora do pavilhão. Por isso entram em pânico quando são transportados para o matadouro, por volta dos seis meses de idade. Os porcos são maus viajantes. São muito sensíveis ao stress e adoecem facilmente durante a viagem.
Quando têm crias, as porcas estão entaladas entre duas barras, de modo a que não se possam virar nem cuidar dos leitões, apenas amamentá-los. Isto é feito para impedir que a porca esmague os leitões por falta de espaço. No Brasil, as porcas gestantes passam ainda muitas vezes a gestação em celas individuais. As novas regras (Instrução Normativa 113/2020) exigem alojamento em grupo a partir do 35.º dia de gestação, mas as explorações já existentes têm prazo até 2045. |
Os leitões
Os leitões são separados da mãe após 3 a 4 semanas, em vez das 14 semanas naturais. Depois vão para uma exploração de engorda, geralmente com pavimento gradeado e sem palha.
A diretiva europeia proíbe cortar a cauda dos leitões por rotina. Mesmo assim, é muito comum. A cauda é cortada para evitar que os porcos a mordam uns aos outros, por tédio e por stress.
Os machos são castrados por causa do cheiro a varrasco na carne. Na União Europeia, a castração sem anestesia é permitida até aos sete dias de idade. No Brasil, a anestesia e a analgesia só serão obrigatórias a partir de 2030.
Os porcos sofrem de stress grave (por exemplo, problemas cardíacos e de estômago) por causa da falta de liberdade de movimento. Por frustração, mordem muitas vezes as barras da sua jaula. Por natureza, os porcos são animais muito brincalhões e inteligentes. Leia mais sobre o bem-estar dos porcos. |
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As vacas leiteiras
Portugal tem cerca de 233 000 vacas leiteiras, 41% delas nos Açores (2022). O Brasil tem 15,1 milhões de vacas ordenhadas (2024). Em 2025, o Brasil abateu 42,9 milhões de bovinos, um recorde.
As vacas leiteiras vivem em média apenas cerca de 6 anos, embora por natureza pudessem viver uns 20 anos. Depois de, em média, quase 4 anos de ordenha, a sua produção diminui e são enviadas para o matadouro. Durante a sua vida têm uma cria por ano, porque é a única maneira de manter a produção de leite. A cria é separada da mãe imediatamente ou, no máximo, após uma semana, para impedir que se crie uma ligação entre a mãe e a cria.
Nas primeiras oito semanas, as crias são muitas vezes mantidas isoladas umas das outras, em pequenas cabanas brancas em forma de iglu. Nesta fase têm uma forte vontade de mamar. Como não podem beber o leite da mãe, mamariam nos corpos das outras crias. |
Os vitelos
Os vitelos criados para carne são abatidos muito jovens. Os vitelos de carne branca vão normalmente para o matadouro por volta dos seis meses, os de carne rosada aos oito ou nove meses. Os vitelos podem ser transportados a partir das duas semanas de idade. Nos Países Baixos, por exemplo, foram abatidos 1,37 milhões de vitelos em 2025; quase toda a carne é exportada.
Os vitelos de carne branca recebem sobretudo leite artificial (substituto do leite) com tão pouco ferro que a carne se mantém pálida. A diretiva europeia sobre vitelos fixa apenas um limite mínimo: em média 4,5 mmol de hemoglobina por litro de sangue. A partir das duas semanas, os vitelos também têm de receber alguma forragem, até 250 gramas por dia. Como o ferro é mantido tão escasso, os vitelos lambem muitas vezes o metal do seu compartimento.
Depois das oito semanas, os vitelos já não podem ficar em compartimentos individuais. São então criados em grupo, normalmente em pavimentos gradeados duros de madeira ou betão, com cerca de 1,8 m² por vitelo. O estábulo tem de estar iluminado durante o dia; a escuridão total de antigamente é proibida. Mas pastar, correr ou mamar na mãe é algo que estes vitelos nunca poderão fazer em toda a sua vida. |
As galinhas poedeiras
Quando os pintos saem do ovo na incubadora, vão para uma exploração de poedeiras ou de engorda, consoante a raça e o sexo.
Os pintos machos das raças poedeiras não têm valor para a indústria. Em Portugal e no Brasil ainda são mortos logo depois de nascerem, com gás ou triturados. Em Portugal, estima-se que sejam 4 a 5 milhões por ano. No Brasil, um projeto de lei que proíbe esta prática (PL 783/2024) ainda não foi aprovado. Na Alemanha e em França já é proibido matar os pintos machos, com algumas exceções.
Em Portugal, cerca de três em cada quatro galinhas poedeiras vivem em gaiolas; a média europeia é de 45%. No Brasil, as gaiolas são ainda mais comuns: cerca de 95% das galinhas poedeiras vivem em gaiolas, num efetivo de 277,5 milhões de galinhas (2024). As gaiolas em bateria clássicas estão proibidas na União Europeia desde 2012. As gaiolas "melhoradas" continuam permitidas: cerca de 750 cm² por galinha, pouco mais do que uma folha de papel. As galinhas são forçadas a um ritmo artificial de dia e noite, para porem o maior número possível de ovos. Uma galinha põe cerca de 300 ovos por ano. Quando põe menos, vai para o matadouro, geralmente com pouco mais de um ano. |
Os frangos
Em 2025 foram abatidos 233 milhões de frangos em Portugal e 6,7 mil milhões no Brasil. Os frangos vivem cerca de 6 semanas e depois são abatidos. Neste curto período crescem de forma extremamente rápida graças a uma alimentação especial: de pintainho a frango quase adulto. Se vivessem mais tempo nestas condições, ficariam demasiado pesados e morreriam. Para o transporte para o matadouro são metidos à força em grades, com grande risco de fraturas nas asas e nas patas. Nestas condições cheias de stress, são levados para o matadouro em camiões semiabertos.
Na União Europeia, as aves têm de ser atordoadas antes do abate. Muitos matadouros usam um banho de água eletrificado. Para isso, os frangos são pendurados vivos pelas patas, de cabeça para baixo. |
Os perus
Em 2025 foram abatidos 3,8 milhões de perus em Portugal. Na criação comercial, os perus são mantidos aos milhares num espaço pequeno e escuro. Isto leva muitas vezes a agressões, problemas nas patas, stress, arrancar de penas e canibalismo. O objetivo é engordar os perus o mais depressa possível. Por isso, a seleção está centrada numa velocidade de crescimento muito alta. Uma consequência grave desta seleção é que os animais já não conseguem acasalar de forma natural. Os machos são demasiado pesados. As fêmeas só podem ser fecundadas por inseminação artificial. |
O foie gras
Para o foie gras, patos e gansos são alimentados à força durante as duas últimas semanas de vida. Duas vezes por dia, um tubo com cerca de 30 cm é-lhes enfiado na garganta. Sob pressão, uma grande quantidade de papa de milho é empurrada até ao papo. Por causa deste excesso de comida, a gordura acumula-se muito depressa no fígado. A circulação do sangue e a respiração das aves ficam perturbadas, porque o fígado, várias vezes maior do que o normal, comprime os pulmões.
No Brasil, a Lei 15.475/2026 proíbe a produção e a venda de produtos obtidos por alimentação forçada de animais, incluindo os importados. |
As martas
(e também raposas, chinchilas e outros animais criados pela pele)
Na primavera, as crias nascem em gaiolas. Após sete meses (quando têm a pelagem de inverno), são mortas e esfoladas. Durante as suas curtas vidas, os animais vivem em gaiolas demasiado pequenas. Não podem correr, esconder-se ou fugir. Não têm água para nadar ou para pescar. Têm apenas um bebedouro na gaiola. As martas são predadores selvagens e têm as mesmas tendências que as suas congéneres que vivem em liberdade.
Não é nenhuma surpresa que este tédio e esta frustração as enlouqueçam. Isto vê-se no comportamento anormal que as martas desenvolvem: a repetição contínua de movimentos inúteis (como os predadores em maus jardins zoológicos, que andam continuamente para a frente e para trás). Além disso, as martas mordem muitas vezes a sua própria cauda ou pele. Andam muitas vezes em círculos ou giram constantemente a cabeça em torno da torneira do bebedouro.
Nos Países Baixos, por exemplo, a criação de animais para peles está proibida desde 2021. Noutros países continua. |
Os coelhos
Em 2025 foram abatidos 2,6 milhões de coelhos em Portugal. Na criação intensiva, os coelhos vivem geralmente em gaiolas, com pouco espaço para saltar. As coelhas não são mais do que artigos descartáveis. Têm ninhada atrás de ninhada. Quando produzem menos crias ou adoecem, são substituídas. Também morrem muitos coelhos jovens, antes e depois do desmame. A causa principal é o mau alojamento dos animais na criação intensiva.
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O transporte internacional de animais
Na nossa página de vídeo são mostrados os abusos durante os transportes internacionais, que duram dias.
Desde 2015, partem navios dos portos de Sines e Setúbal com bovinos e ovinos vivos, sobretudo para Israel. A viagem dura entre 5 e 15 dias. Em 2024, Portugal foi o terceiro maior exportador da União Europeia de animais vivos para o Médio Oriente e o Norte de África.
O Brasil exporta ainda mais: em 2025, mais de um milhão de bovinos vivos saíram do país de navio, um recorde, sobretudo para a Turquia e o Médio Oriente. Em 2018, a partida do navio Nada, com cerca de 27 000 bois a bordo, foi adiada no porto de Santos por decisão judicial; uma veterinária nomeada pelo tribunal descreveu maus-tratos a bordo. Em 2023, um juiz federal de São Paulo proibiu a exportação de animais vivos em todos os portos do país. Em 2025, o Tribunal Regional Federal da 3.ª Região anulou essa sentença.
No país de destino, as regras europeias já não se aplicam: muitos animais são lá abatidos sem atordoamento.

Para impedir que vomitem no camião, os animais muitas vezes não recebem comida no dia anterior ao transporte. São levados dos estábulos escuros para o camião de forma muito brusca. Antes mesmo de a viagem começar, já estão muito perturbados.
Os transportes internacionais aumentam o risco de propagação de doenças como a febre aftosa. Os animais que viajam durante dias passam por muitos lugares onde também passam animais de outros países. |
Abate sem atordoamento (suficiente)
Na União Europeia, o atordoamento antes do abate é obrigatório. A exceção é o abate religioso, como o abate ritual, muitas vezes feito sem atordoamento. Mas o atordoamento também falha muitas vezes. O animal está então consciente quando é morto.
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A indústria pesqueira
Quando os pescadores usam redes de arrasto, não são apanhados apenas os peixes desejados. Segundo a FAO, cerca de 9,1 milhões de toneladas de capturas são devolvidas ao mar todos os anos: quase 11% de todas as capturas. Quase metade vem das redes de arrasto de fundo. Estes peixes são devolvidos porque são demasiado pequenos, porque a quota já foi atingida ou porque não têm valor comercial. Os peixes devolvidos ao mar já estão muitas vezes esmagados, sufocados ou mortos de outra forma.
Quem não fica impressionado com o sofrimento dos peixes durante a pesca pode pensar nas capturas acessórias de mamíferos como os golfinhos, que ficam muitas vezes presos nas redes da pesca do atum. As redes têm vários quilómetros de comprimento. Os golfinhos não conseguem escapar e morrem afogados lentamente.
As redes de arrasto destroem o fundo do mar, de modo que o ecossistema fica completamente desequilibrado e perdido por muito tempo. Segundo a FAO, 37,7% das unidades populacionais de peixes marinhos estão sobre-exploradas (2021).
O peixe não é apenas pescado; também é criado. Os peixes de aquacultura são alimentados com farinha de peixe da pesca selvagem. Alguns peixes, como os salmões, são criados em enormes tanques flutuantes. Esta forma de produção parece-se muito com a pecuária industrial, com todas as suas desvantagens. Mais informação: o peixe é uma boa alternativa à carne?

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Fontes: INE, Inquérito ao abate de aves e coelhos 2025; GPP, com base em dados provisórios do INE, via 3tres3 (suínos 2025); IFAP via Voz do Campo (vacas leiteiras 2022); Comissão Europeia via Agroportal (galinhas em gaiolas); Agroportal (pintos machos); IBGE, Pesquisas Trimestrais do Abate 2025 e Pesquisa da Pecuária Municipal 2024; Reuters e Faunalytics (galinhas em gaiolas no Brasil, 2025); MAPA, Instrução Normativa 113/2020; Lei 15.475/2026; Câmara dos Deputados (PL 783/2024); OMSA/WOAH (2022) e Four Paws, com dados do Eurostat (2025), sobre a exportação por navio; Secex via Agrifatto (2025); TRF3 (2025); CBS (vitelos nos Países Baixos, 2025); diretivas 2008/120/CE (porcos), 1999/74/CE (galinhas) e 2008/119/CE (vitelos); regulamento (CE) 1099/2009 (abate); FAO, A third assessment of global marine fisheries discards (2019) e O estado mundial da pesca e da aquicultura 2024. Atualizado em 9 de outubro de 2026.
Para ver imagens da vida destes animais antes de serem mortos, visite o site da fotógrafa Jo-Anne McArthur. |
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