Muitas pessoas tentam justificar a posse dum animal de estimaçäo com argumentos inválidos. Estes argumentos säo construidos para silenciar a sua própria consciência, ou säo sinais das dificuldades que têm em se relacionarem satisfatóriamente com outras pessoas.

Se subscrever uma ou mais das razões abaixo indicadas, questionamos se as razões apresentadas realmente säo boas razões para possuir um animal de estimaçäo.

  • os animais säo mais fiéis do que as pessoas
  • um animal pode-se engaiolar, e só o tirar da gaiola quando se necessita dele
  • quando já estamos fartos do animal, pode ser posto no asilo ou dá-se-lhe uma injecçäo
  • um animal fica todo entusiasmado quando nos vê
  • com os animais podemos ser nós próprios
  • animais exóticos aumentam o prestígio social
  • as crianças têm de aprender a cuidar de animais
  • se um peixinho morrer pode-se comprar logo outro
  • (saber) mexer em répteis dá um ar valentäo
  • animais que nasceram na prisäo näo sabem melhor, e näo se importam de ficarem em prisäo (solitária)
  • os animais näo provocam zangas e näo fazem recriminações
  • os animais agradecem os bons tratos
  • os animais é que me/nos compreendem
  • A aquisiçäo é cara. Umas poucas centenas de euros säo logo gastas E depois há que contar com as despesas com a cesta as trelas e outros acessórios, além dos custos com o veterinário.
  • Um cäo vive uns quinze anos. Durante estes anos o bicho regula em grande parte as ocupações diárias. é preciso cuidar a horas da alimentaçäo e das saídas higiénicas. Durante as férias tem de ficar em algum lado.
  • As saídas, a educaçäo, o divertimento, as escovadelas, os mimos obrigatórios, tudo junto custa diáriamente muito tempo.
  • Quase todos os cäes, tanto os de pêlo comprido como curto, perdem os pêlos . A casa inteira enche-se de pêlos.
  • Nem todos os cäes säo sempre saudáveis. Em caso de azar os custos com o veterinário väo-se acumulando.
  • Se o bichinho adoece, pode vomitar e urinar e defecar por toda a parte
  • Um cäo pode ter ou desenvolver problemas de comportamento. Pode por exemplo dar cabo dos móveis. Ou pior ainda, comportar-se de forma agressiva contra o dono ou crianças, e chegar mesmo a morder.
  • Em certos municípios os donos säo obrigados a limpar os dejectos, o que é um trabalho sujo e delicado, com saquinhos e pázinhas
  • Alguns cäes näo querem saber de nada nem ninguém
  • E quando (apesar de tudo) as pessoas mais se afeiçoam a eles, acabam por morrer

Por estas razões achamos lamentável que alguém tente impingir aos outros um animal de estimaçäo, ou quando se ouvem queixas que o interesse num certo hobby (como por aquários) está em retrocesso. Qualquer razäo para näo ter animais de estimaçäo tem mérito, mesmo razões como:

  • é trabalho demais
  • Custa demasiado dinheiro
  • Falta-me o espaço
  • Falta-me o tempo
  • Näo quero prender-me
  • E quem cuida dele durante as férias?
  • etc.

Se todavia quiser ter um, mais vale ir buscá-lo ao asilo.

A "Fundaçäo do Reclame Ideal" pede-lhe que reflita antes de adquirir um animal doméstico.

A relaçäo entre o cäo e o homem

Há os que apreciam os cäes e os que ganharam ódio aos cäes (e seus donos).
Mas seja a que grupo se pertença, o livro "a verdade sobre os cäes" de Stephen Budiansky é um livro a näo perder. Neste livro de ciência feita acessível, o autor, que escreveu em revistas como Nature and Science, explica näo só as características do Canis Familiaris, mas aprofunda os vários aspectos da relaçäo entre as pessoas e os cäes.

Já há uns 14.000 anos que os cäes vivem com os seres humanos. Durante muito tempo näo houve práticamente estudos feitos sobre estes animais, porque os animais domésticos näo contavam como "animais autênticos". E ainda hoje alguns biólogos consideram a domesticaçäo uma forma de escravatura.
Budiansky considera isto um disparate. Os cäes foram mais hóspedes que sem serem convidados resolverem ir ficando. "um sucesso evolutivo espectacular, quase sem par no mundo animal". Só nos Estados Unidos há uns 55 milhões de cäes. Têm a seu favor a capacidade de extrair comida e atençäo aos humanos. De facto, säo parasitas comuns.

Os cäes säo descendentes directos dos lobos. A grande diferença é que mesmo adultos continuam a apresentar comportamento típico de crias de lobos.
Näo säo esquivos, mendigam comida, säo submissos, ladram muito, e estäo sempre prontos a brincar.

A relaçäo entre os cäes e as pessoas certamente que nem sempre é harmoniosa. Há cäes que vomitam constantemente nos sapatos dos donos, cäes que passam a vida a ladrar, e cäes que näo podem ser deixados sós nem um segundo sem desatarem a uivar. Pior ainda é quando mordem. Só nos Estados Unidos Há cerca de um milhäo de pessoas por ano que säo sériamente mordidas. Doze pessoas acabam por morrer vítimas das dentadas, e as compensações por danos atingem um milhar de milhões de dólares por ano.

A culpa disto é dos donos ou dos cäes? Segundo Budiansky ambos têm culpas. Os cäes no seu habitat actual pouco uso podem fazer das características que säo o fruto da sua evoluçäo. Impulsos e medos primários como morder crianças que se assemelham e confundem com uma presa, säo difíceis de erradicar. Por outro lado muitas pessoas procedem erradamente ao lidar com um cäo como se duma pessoa se tratsse. A ideia que os cäes säo leais, dignos de confiança, de espirito altruista, e corajosos näo passa duma fábula. Projecções. Tal como os lobos, os cäes submetem-se ao domínio dum lider. Quando ele falta, ou näo projecta suficientemente a sua autoridade, o cäo tentará ele próprio afirmar-se como essa figura autoritária.

Palpites educacionais do tipo Martin Gaus para evitar comportamentos indesejáveis näo säo dados neste livro. Mas Budiansky aconselha a tratar cäes como cäes. "Os cäes näo querem ser forçados a comportarem-se como se fossem adultos responsáveis. Querem ser cäes."