Como está a situação agora?
Este artigo de Agnes Groot Roessink saiu em agosto de 2005 na revista neerlandesa Dier en Milieu. Descreve a situação nos Países Baixos. Os problemas continuam a existir, também em Portugal e no Brasil. Muitos coelhos são comprados por impulso, muitas vezes para uma criança ou pela Páscoa. Depois são abandonados ou entregues a um abrigo. Muitos abrigos estão cheios.
O que diz a lei
- Portugal. Abandonar um animal de companhia é crime quando põe em perigo a sua alimentação e os cuidados de que precisa: pena de prisão até seis meses ou multa (Código Penal, artigo 388.º, desde 2014). Um coelho de estimação também é um animal de companhia (artigo 389.º).
- Portugal. Desde 2018 as lojas não podem expor animais nas montras. Na Internet os animais podem ser anunciados, mas a venda só pode ser feita no local de criação ou numa loja licenciada. O animal não pode ser entregue por uma transportadora (Lei n.º 95/2017).
- Brasil. Maltratar animais domésticos é crime, punido com detenção de três meses a um ano e multa (Lei 9.605/1998, artigo 32). O abandono é em geral tratado como maus-tratos. A pena mais pesada introduzida em 2020 (dois a cinco anos de reclusão) vale só para cães e gatos.
- Brasil. Desde março de 2026, as multas administrativas por maus-tratos vão de R$ 1.500 a R$ 50.000 por animal. O abandono torna a multa mais alta (Decreto 12.877/2026).
O que continua por regular
- Os coelhos não têm de ter microchip nem de ser registados, nem em Portugal nem no Brasil. O registo obrigatório vale só para cães, gatos e, em Portugal, furões. O novo regulamento europeu de 2026 também só abrange cães e gatos. Quem abandona um coelho dificilmente é encontrado.
- Não há uma área mínima legal para um coelho de estimação. A Rabbit Welfare Association britânica aconselha, para dois coelhos, pelo menos 3 × 2 metros, com 1 metro de altura.
- Os coelhos continuam à venda em lojas de animais. No Brasil, a cadeia Cobasi suspende há oito anos a venda de coelhos e roedores pela Páscoa (em 2025, de 7 a 22 de abril, em mais de 245 lojas), porque depois da festa muitos animais são devolvidos ou abandonados.
Os dois abrigos deste artigo já não existem. Procura um coelho? Pergunte primeiro no centro de recolha oficial do seu município ou a uma associação de proteção animal.
Pensa em ter um coelho? Um coelho pode viver 8 a 12 anos. Precisa de muito espaço e gosta de viver com outro coelho. Procure primeiro num abrigo.
Fontes: Código Penal, artigos 388.º e 389.º (Lei n.º 69/2014 e Lei n.º 39/2020); Lei n.º 95/2017; Decreto-Lei n.º 82/2019 (SIAC); Regulamento (UE) 2026/1818; Lei 9.605/1998 (artigo 32) e Lei 14.064/2020; Decreto 12.877/2026; Lei 15.046/2024; Rabbit Welfare Association & Fund, Housing; Mercado&Consumo, Cobasi suspende venda de coelhos e roedores durante a Páscoa (8 de abril de 2025). Atualizado em outubro de 2026. |
O artigo de 2005
Texto e fotografias: Agnes Groot Roessink, pelo grupo de trabalho de regulamentação da Politie, Dier en Milieu (Polícia, Animal e Ambiente). |
A história de dois abrigos de coelhos
A maior parte dos coelhos são por fim abandonados nos bosques e têm de se desenrascar ou são oferecidos na Internet, onde desaparecem nas malhas de comerciantes e acabam provavelmente por servirem como alimento para cobras. Também acontece muitas vezes que os atiram por cima das vedações das quintas pedagógicas.
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Porquê este artigo publicado no número de agosto de 2005 da revista Dier en Milieu?
Para informar o leitor das muitas fundações de voluntários criadas para se ocuparem com o destino destes animais. Além disso chegamos à conclusão que estas fundações são por vezes desconhecidas de quem fiscaliza.
Há algum tempo houve uma discussão sobre se os coelhos poderiam razoavelmente servir de animais domésticos. Na altura todos tinham a sua opinião. Mas a prática infelizmente mostrou que muito corre ou correu mal com a vida de muitos coelhos.
Assim foi até com os meus coelhos, pertencentes ao grupo dos "coelhos descartáveis" ou seja coelhos que são "descarregados" num abrigo de coelhos. Atirados fora pelo simples facto das crianças para quem o animal foi comprado perderam a vontade de cuidar do animal, ou que cuidar dele custava demasiado tempo. Um coelho deste grupo tem por vezes a "sorte" de ir parar a um abrigo de coelhos. |
Bunny Bin em Ermelo
Seguidamente conta-se a história de dois centros de receção de coelhos, Bunny Bin em Ermelo, e Abrigo Goofy em Oldenzaal onde tive a oportunidade de ter uma conversa. A fundação Bunny Bin em Ermelo foi criada por Wilma Moolenbeek e tem por fim aliviar um pouco o sofrimento que é comum na vida dos coelhos domésticos. Ela fala de "um pouco", porque está consciente que em muitas ruas dos Países Baixos há coelhos que definham em solidão, que muitas vezes são tratados de forma errada e que não há forma de contactar todos os proprietários. Mas para a Wilma todos contam. Conta que nas lojas de animais se encontram os coelhinhos mais queridos e mimosos que se possa imaginar, autênticas tentações de carícias... |
O problema das compras impulsivas
E à venda por preços irrisórios. As crianças por vezes conseguem logo convencer os pais que é mesmo esses que as farão felizes. Infelizmente a compra do animal é feita de forma impulsiva – geralmente só um. Muitas vezes é vendido um coelho como sendo da raça anã, que por fim se descobre não ser, e também quanto ao género do animal a informação é falsa, o que decorre do facto de serem vendidos ainda demasiado novos. O facto é que do ponto de vista económico, há vantagens em vender um coelho bebé em vez de vender um exemplar adulto. Muitos destes pequenos coelhos ficam assim condenados a viverem a vida inteira numa caixa demasiado pequena (porque o preço duma maior, para quando crescer, é demasiado caro...) e muitas vezes a ração e o tratamento que recebem estão baseados numa ignorância ingénua. Quase nada se sabe sobre as doenças de que poderão sofrer, e menos ainda sobre o comportamento do animal e do que necessita para poder vir a ter uma vida longa e sobretudo feliz em harmonia com as pessoas à sua volta. Outro dado que mostra o drama que se desenrola é que os coelhos podem chegar a ter 8 a 12 anos, mas nos Países Baixos a sua longevidade média não passa dos 3 anos. |
Expectativa de vida e realidade
Aceitemos que os coelhos são animais frágeis, muito mais frágeis do que muita gente pensa, mas com mais algum conhecimento e mais deliberação antes de se decidir adquiri-los esta média poderia certamente ser ultrapassada.
A Wilma ficou uma vez bastante chocada com a mãe duma criança, por esta ter ficado alarmada com a possibilidade dos coelhos poderem viver 8 a 12 anos... mas então a filha já quase teria passado a adolescência! Parecia que lhe fazia mais jeito se os animais morressem depressa – e dum ponto de vista cínico, nem precisa de se esforçar... Mas, diz a Wilma, a vida deste animal, inteligente e engraçado também conta, e a qualidade da sua vida também?! Num país em relativa prosperidade... e esperemos com sentido moral... poderia fazer-se melhor! |
O trabalho dos abrigos
A Wilma e a sua equipa decidiram responder ao desafio. E tal como ela muitos outros abrigos para coelhos entre os quais o abrigo Goofy em Oldenzaal – que de nenhuma forma se consideram concorrentes, mas grupos de apoiantes que tocam o alarme e tentam alcançar e informar as pessoas.
A Fundação Bunny Bin começou a funcionar em 2002. Desde então conseguiu hospedar 1921 coelhos e para 1854 conseguiu uma nova colocação satisfatória. Uma condição que Bunny Bin põe às pessoas que estão dispostas a hospedar um dos coelhos "descartáveis" é a assinatura duma garantia que o coelho não será usado para procriação. Outro dado importante é que se alguém por que razão seja se quiser ver livre do coelho Bunny Bin voltará a aceitá-lo.
Bunny Bin cuida também da castração dos coelhos-machos, para não poderem ter descendência. Este é um abrigo de coelhos que está a funcionar bem, porque nos Países Baixos quem o procura sabe encontrá-lo. Aqui a compra dum "coelho descartável" é um pouco menos facilitada do que na loja dos animais, porque os custos da castração têm de ser pagos. Se o animal não for castrado então pede-se uma doação voluntária. |
Abrigo Goofy em Oldenzaal
O Abrigo Goofy em Oldenzaal foi criado por Truus van Gaalen e pelo seu marido Gerrit. Ambos começaram há 15 anos a cuidar de coelhos porque não havia outras alternativas. Ambos pertenciam ao voluntariado numa ambulância para animais. Só no ano passado acolheram 788 animais. Este ano vão ter de acolher muitos mais, porque já chegaram ao número total que tiveram o ano passado.
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Desleixo
Mas por vezes os abrigos de coelhos defrontam-se com situações que até para eles são chocantes. Como a situação que encontraram em Apeldoorn. No fim de Maio deste ano ouvi a história de coelhos vítimas de desleixo em Apeldoorn. O abrigo de coelhos Goofy, ou seja Truus van Gaalen tinha-se envolvido no destino destes animais devido a um alerta que tinha recebido. A dona dos coelhos tinha procurado o contacto com o abrigo porque já não sabia como lidar com a situação que se tinha criado. Há oito anos tinha comprado dois coelhos para as crianças. Alguns anos mais tarde tinha comprado mais dois. Por fim declarou que já tinha mais de 60 coelhos. Os coelhos estavam alojados num aviário de 4 metros por 5 e além dos coelhos habitavam lá ainda várias galinhas e pombos. No aviário havia cinco caixas e fora havia mais três, todas cheias de coelhos.
Truus van Gaalen conseguiu lugar para 40 destes coelhos no abrigo. A dona desfez-se voluntariamente destes animais porque como ela própria disse, realmente já eram demasiado coelhos. Dos outros coelhos não se conseguiu separar. Além do grande número de coelhos em espaço demasiado reduzido havia negligência no tratamento dos animais. Havia coelhos com os olhos inflamados, abcessos no dorso, orelhas destruídas et cetera e ainda sem falar dos efeitos da endogamia. |
Consequências da endogamia
Alguns dias depois do abrigo Goofy ter levado os 40 coelhos um colega e eu fizemos uma averiguação. No local constatamos que o aviário ainda alojava 18 coelhos adultos, dois dos quais tinham crias. Com a ajuda duma ambulância para animais que chamamos ao local cuidamos que os restantes animais fossem alojados no abrigo Goofy. A repartição local da Proteção aos Animais relatou-nos que se o Abrigo Goofy não tivesse alojado os animais teriam ficado em dificuldades. Só tinham lugar para três coelhos.
Recentemente nasceram 50 coelhos, dos quais 20 ainda vivem. As restantes crias foram eutanasiadas porque havia algumas sem ouvidos, sem as patas ou com o dorso aberto, os resultados da endogamia. No total trata-se de 108 coelhos dos quais 78 ainda vivem e para os quais é preciso encontrar um alojamento aceitável. Todas as despesas que foram feitas, como os custos dos veterinários, alimentação, alojamento etc. foram pagas do nosso próprio bolso. Os abrigos para os coelhos dependem das doações que recebem. |
Lixeira para coelhos
Outro exemplo é a situação desastrosa num parque chamado De Groene Scheg em Putten. Este parque é usado como uma lixeira. Não para o lixo – ou de certa forma – porque, diz a Wilma, parece haver pessoas que é nesses termos que pensam nos seus animais domésticos. Os vizinhos que têm uma vista sobre o parque podem quase todos os dias ver os novos animais que lá são depositados. Muitos desses são coelhos ou porquinhos da Índia.
O que acontece com estes animais? Os coelhos que já lá estão instalados tornaram-se bravos e consideram o território como seu. Os coelhos domésticos não estão adaptados a sobreviverem na "selva". As fêmeas estão constantemente prenhas... e os machos lutam uns com os outros e muitas vezes até à morte dum deles. Os recém-chegados são imediatamente atacados. Os vizinhos do parque têm visto coelhos e porquinhos da Índia a morrerem afogados durante as perseguições.
Os animais que são capturados, muitos dos quais os que estão em pior estado, são entregues ao Bunny Bin, e aqui custam somas elevadas em cuidados com os veterinários que tentam ainda remediá-los. Alguns têm mesmo de ser eutanasiados. Bunny Bin mantém rigorosamente uma relação da proveniência de cada animal. Os números são reveladores.
Ah! "Não são mais que animais"?
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