Defender a pecuária industrial de forma inadequada
Os defensores da pecuária industrial usam sempre os mesmos argumentos. Abaixo agrupámo-los por tema, cada um com a nossa resposta. |
A economia e os rendimentos |
| A pecuária industrial contribui para a economia. |
- Usar argumentos económicos para justificar o que é eticamente inaceitável é imoral.
- Se também se contarem os danos (por exemplo, para o ambiente), a contribuição é muito menor. Nos Países Baixos, por exemplo, a pecuária industrial deixa então mesmo de contribuir para a economia.
- Em países como Portugal ou os Países Baixos, o peso da agricultura e da pecuária na economia era antigamente grande; hoje é pequeno. Mesmo onde continua a ser grande, como no Brasil, o primeiro ponto continua a valer.
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| O consumidor pede carne barata e nós fornecemo-la. |
| O supermercado oferece carne barata da pecuária industrial e carne biológica mais cara. O consumidor quer carne produzida de forma responsável, mas cede muitas vezes ao preço mais baixo. O supermercado ganha mais com a carne biológica, por causa da margem maior, mas atrai os clientes com promoções. |
| Os criadores industriais dependem desta atividade para o seu rendimento. |
| Usar argumentos económicos para justificar o que é eticamente inaceitável é imoral. Em princípio, ninguém está condenado a ganhar a vida com trabalho eticamente inaceitável: há outras formas decentes de ganhar a vida. |
| Os agricultores são obrigados a trabalhar na pecuária industrial para ganharem a vida. |
| Os agricultores têm livre-arbítrio. Se também tiverem consciência, escolhem uma forma decente de trabalhar. |
| As pessoas não estão dispostas a pagar mais pela carne e pelos lacticínios. |
| Hoje as pessoas já pagam, através dos impostos, os danos que a pecuária causa ao ambiente e os custos de manter o setor (por exemplo, o combate às doenças dos animais). Seria muito mais democrático incluir estes custos diretamente nos preços. |
| Os criadores fizeram grandes investimentos, contando com o acordo das autoridades. |
| Isso torna as autoridades responsáveis pelo saneamento das dívidas. É imoral esperar pelo fim do prazo de amortização. Também os bancos deviam contribuir, permitindo pagar as dívidas sem juros. O montante da dívida nunca pode justificar o fim do investimento. |
| Se a pecuária industrial for proibida, isso custará milhares de milhões em indemnizações. |
| Também se pode acabar com a pecuária industrial cortando os apoios indevidos que a mantêm viva. Os seus produtos ficariam então mais caros do que os biológicos. O setor mudaria depressa para a produção biológica. |
O comércio e a exportação |
| Sem a exportação de carne, o nosso país teria um défice comercial. |
| Se o défice comercial é um problema, a solução não é acrescentar uma exportação imoral. Há outras possibilidades mais decentes, por exemplo limitar a importação de produtos de origem imoral. |
| O nosso país importa sofrimento animal, mas exporta bem-estar animal. |
| Um país exportador não exporta bem-estar animal. Pelo contrário: só consegue exportar porque poupa no bem-estar dos animais. Deve acabar-se tanto com a importação como com a exportação de carne produzida de forma irresponsável. |
| A pecuária alimenta o mundo. |
| A carne alimenta sobretudo quem a pode pagar. Para cada quilo de carne são precisos vários quilos de ração, cultivada em terras que podiam alimentar diretamente as pessoas. O clima, a natureza e os próprios animais ficariam melhor com uma alimentação de base vegetal. |
| O aumento da escala é necessário para fortalecer a nossa posição perante a concorrência. |
| A exploração dos animais nos grandes países exportadores obriga os outros países a seguir uma produtividade imoral. Deixando de exportar carne, é possível quebrar esta espiral negativa. |
| O nosso país tem de cumprir os acordos internacionais de comércio livre (Organização Mundial do Comércio). |
| Cada país é, antes de mais, responsável pela pecuária no seu próprio território. Um país que apoia uma exportação enorme de carne e lacticínios baratos da pecuária industrial tem uma influência negativa na pecuária no estrangeiro. Também no comércio livre se podem negociar exceções. Querer é poder. |
| No nosso país podemos controlar a pecuária industrial; no estrangeiro são menos rigorosos. |
- Se as empresas fossem para o estrangeiro, poderíamos obrigá-las, através de limites à importação, a produzir de forma responsável para o nosso mercado.
- Um país exportador produz sobretudo carne para exportação. Se esse excedente fosse produzido noutro lugar, com mais espaço, o ambiente sofreria menos.
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| O estrangeiro pede carne e peles baratas. |
| No estrangeiro também se exploram crianças para produzir barato. O padrão moral mais baixo dos outros nunca deve ser o ponto de partida das nossas normas. É uma forma infantil de raciocinar: «O Zequinha pode ir brincar lá para fora, por isso eu também posso.» |
| É o consumidor que tem de tornar o mercado dos produtos biológicos interessante. |
| Por causa da exportação dos produtos da pecuária industrial e porque os danos não são taxados, a carne é vendida demasiado barata, cá e no estrangeiro. Por isso o mercado dos produtos biológicos não tem as mesmas oportunidades. |
| Só faz sentido combater a pecuária industrial a nível europeu ou internacional. Se um país acabar sozinho com a pecuária industrial, outro país ficará com ela. |
| Qualquer iniciativa unilateral e incondicional para acabar com a pecuária industrial diminui o sofrimento dos animais. Se os países também chegarem a acordo para limitar o comércio internacional de produtos de origem imoral, isso acabará com o sofrimento dos animais. |
| Se a pecuária industrial for proibida no nosso país, isso não significa que o estrangeiro siga o exemplo. |
| Não diretamente. Mas depois é possível exercer pressão moral de consciência tranquila. Quem exporta sofrimento animal faz como Frei Tomás: «Faz o que ele diz, não faças o que ele faz.» |
| Se nós não o fizermos, o estrangeiro fá-lo-á e ficamos para trás. |
| Se um país tem pressa em liderar com algo negativo, aumenta a probabilidade de os outros também se apressarem: é a espiral negativa. Quanto mais cedo começarmos com algo positivo, mais depressa os outros países sentem que estão atrasados nesse ponto. Assim criamos uma espiral positiva. |
A lei, as autoridades e a religião |
| O nosso país é um exemplo em matéria de bem-estar animal. |
| Muitos países dizem isto de si próprios. Um país pode ter muitas regras contra o sofrimento animal sem que essas regras sejam suficientes. Aliás, foi preciso regulamentar o bem-estar animal precisamente porque muitos criadores tendem a fugir até às exigências mínimas. |
| A lei não proíbe a pecuária industrial, portanto é permitida. |
| Passo a passo, a pecuária industrial ultrapassou o limite do que é moralmente admissível. Combatê-la por via legal levará anos. |
| As autoridades estimularam a pecuária industrial no passado e os bancos concederam grandes empréstimos. |
| Correto. Isso torna as autoridades e os bancos responsáveis por amortecer as perdas e por remover os obstáculos ao fim progressivo da pecuária industrial. Uma política que se revelou pouco sensata pode sempre ser substituída por outra melhor (veja-se o abandono da energia nuclear na Alemanha). |
| Os criadores industriais têm direito à liberdade de empresa, tal como têm direito à liberdade. |
| Como a pecuária industrial viola o direito fundamental dos animais à liberdade, a sua atividade é ilegítima. |
| Na Bíblia está escrito que o ser humano é senhor dos animais e que os animais estão à sua disposição (o ser humano como administrador). |
| Em parte nenhuma da Bíblia está escrito que é permitido manter os animais nestas condições. |
| Se a investigação científica mostrar que o bem-estar não é prejudicado, podemos manter os animais presos. |
| A ciência não pode decidir se Deus existe nem se um direito é válido. A investigação científica não pode provar nem refutar direitos fundamentais. |
O bem-estar dos animais |
| Os animais são bem tratados na pecuária industrial. |
| Dar aos animais comida e água suficientes não garante o seu bem-estar. Também não garante a sua liberdade (de ter um comportamento natural). |
| Na pecuária industrial tem-se o maior cuidado com o bem-estar dos animais. |
| Enquanto não puderem ter um comportamento natural, o bem-estar dos animais será sempre mínimo. |
| Os animais na pecuária industrial vivem melhor do que as pessoas que moram em apartamentos pequenos ou trabalham numa linha de montagem. |
| As pessoas podem escolher quanto tempo querem viver e trabalhar nestas condições. Os animais não têm escolha. |
| Os animais vivem melhor na pecuária industrial do que na pecuária biológica, onde andam no chão e adoecem mais facilmente. |
- Também na pecuária biológica é melhor criar um número muito reduzido de animais. Se tiverem acesso a um prado que suporte o estrume, o risco de contaminação é insignificante.
- Na pecuária industrial usam-se grandes quantidades de antibióticos para prevenir doenças.
- Num ambiente natural, a doença é uma coisa natural.
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| Os animais vivem melhor na pecuária industrial do que em liberdade na natureza. |
| Basta abrir a jaula: um animal saudável foge para a liberdade. Prefere claramente a liberdade à certeza de ter comida. |
| Uma vida em liberdade na natureza também tem os seus inconvenientes. |
| Ninguém vai defender que se ponham predadores nos estábulos, que se baixe artificialmente a temperatura no inverno ou que se imponha um período de jejum. |
| Não se nota nos animais da pecuária industrial que lhes falte bem-estar: crescem bem. |
| Ninguém perde o direito à liberdade e a uma vida natural, nem a necessidade delas, por ter um aspeto «neutro» ou «bem tratado» ou por crescer depressa. Os frangos de carne crescem tão depressa que muitos morrem por isso. |
| Os animais da pecuária industrial são domesticados: estão habituados à presença humana. |
| Isso não significa que se sintam bem quando o seu espaço é extremamente limitado ou quando lhes é tirada qualquer possibilidade de comportamento natural. |
O ambiente e o espaço |
| Os animais da pecuária industrial são alimentados com restos comestíveis que, de outra forma, teríamos de deitar fora ou queimar. |
| Há tantos animais que a maior parte da sua ração tem de ser cultivada de propósito, muitas vezes noutros países. Uma produção limitada e ecologicamente responsável, destinada só ao consumo nacional, também permite aproveitar todos os restos comestíveis. |
| Quem vive no campo tem de aceitar os incómodos da pecuária industrial. |
| Também no campo ninguém tem o direito de tirar a liberdade aos outros (pessoas ou animais). Ar, terra e água limpos são um direito de todos e um dever para quem vive no campo. |
| No nosso país o solo é caro e a pecuária industrial usa menos solo do que a pecuária ecológica. |
| O solo é usado noutro lugar, para cultivar a ração dos animais. Poupar espaço nunca pode justificar a violação dos direitos fundamentais dos animais, sobretudo quando grande parte da produção se destina à exportação de carne e lacticínios. |