Argumentos inválidos em defesa da pecuária industrial

Defender a pecuária industrial de forma inadequada

Os defensores da pecuária industrial usam sempre os mesmos argumentos. Abaixo agrupámo-los por tema, cada um com a nossa resposta.

A economia e os rendimentos

A pecuária industrial contribui para a economia.
  1. Usar argumentos económicos para justificar o que é eticamente inaceitável é imoral.
  2. Se também se contarem os danos (por exemplo, para o ambiente), a contribuição é muito menor. Nos Países Baixos, por exemplo, a pecuária industrial deixa então mesmo de contribuir para a economia.
  3. Em países como Portugal ou os Países Baixos, o peso da agricultura e da pecuária na economia era antigamente grande; hoje é pequeno. Mesmo onde continua a ser grande, como no Brasil, o primeiro ponto continua a valer.
O consumidor pede carne barata e nós fornecemo-la.
O supermercado oferece carne barata da pecuária industrial e carne biológica mais cara. O consumidor quer carne produzida de forma responsável, mas cede muitas vezes ao preço mais baixo. O supermercado ganha mais com a carne biológica, por causa da margem maior, mas atrai os clientes com promoções.
Os criadores industriais dependem desta atividade para o seu rendimento.
Usar argumentos económicos para justificar o que é eticamente inaceitável é imoral. Em princípio, ninguém está condenado a ganhar a vida com trabalho eticamente inaceitável: há outras formas decentes de ganhar a vida.
Os agricultores são obrigados a trabalhar na pecuária industrial para ganharem a vida.
Os agricultores têm livre-arbítrio. Se também tiverem consciência, escolhem uma forma decente de trabalhar.
As pessoas não estão dispostas a pagar mais pela carne e pelos lacticínios.
Hoje as pessoas já pagam, através dos impostos, os danos que a pecuária causa ao ambiente e os custos de manter o setor (por exemplo, o combate às doenças dos animais). Seria muito mais democrático incluir estes custos diretamente nos preços.
Os criadores fizeram grandes investimentos, contando com o acordo das autoridades.
Isso torna as autoridades responsáveis pelo saneamento das dívidas. É imoral esperar pelo fim do prazo de amortização. Também os bancos deviam contribuir, permitindo pagar as dívidas sem juros. O montante da dívida nunca pode justificar o fim do investimento.
Se a pecuária industrial for proibida, isso custará milhares de milhões em indemnizações.
Também se pode acabar com a pecuária industrial cortando os apoios indevidos que a mantêm viva. Os seus produtos ficariam então mais caros do que os biológicos. O setor mudaria depressa para a produção biológica.

O comércio e a exportação

Sem a exportação de carne, o nosso país teria um défice comercial.
Se o défice comercial é um problema, a solução não é acrescentar uma exportação imoral. Há outras possibilidades mais decentes, por exemplo limitar a importação de produtos de origem imoral.
O nosso país importa sofrimento animal, mas exporta bem-estar animal.
Um país exportador não exporta bem-estar animal. Pelo contrário: só consegue exportar porque poupa no bem-estar dos animais. Deve acabar-se tanto com a importação como com a exportação de carne produzida de forma irresponsável.
A pecuária alimenta o mundo.
A carne alimenta sobretudo quem a pode pagar. Para cada quilo de carne são precisos vários quilos de ração, cultivada em terras que podiam alimentar diretamente as pessoas. O clima, a natureza e os próprios animais ficariam melhor com uma alimentação de base vegetal.
O aumento da escala é necessário para fortalecer a nossa posição perante a concorrência.
A exploração dos animais nos grandes países exportadores obriga os outros países a seguir uma produtividade imoral. Deixando de exportar carne, é possível quebrar esta espiral negativa.
O nosso país tem de cumprir os acordos internacionais de comércio livre (Organização Mundial do Comércio).
Cada país é, antes de mais, responsável pela pecuária no seu próprio território. Um país que apoia uma exportação enorme de carne e lacticínios baratos da pecuária industrial tem uma influência negativa na pecuária no estrangeiro. Também no comércio livre se podem negociar exceções. Querer é poder.
No nosso país podemos controlar a pecuária industrial; no estrangeiro são menos rigorosos.
  1. Se as empresas fossem para o estrangeiro, poderíamos obrigá-las, através de limites à importação, a produzir de forma responsável para o nosso mercado.
  2. Um país exportador produz sobretudo carne para exportação. Se esse excedente fosse produzido noutro lugar, com mais espaço, o ambiente sofreria menos.
O estrangeiro pede carne e peles baratas.
No estrangeiro também se exploram crianças para produzir barato. O padrão moral mais baixo dos outros nunca deve ser o ponto de partida das nossas normas. É uma forma infantil de raciocinar: «O Zequinha pode ir brincar lá para fora, por isso eu também posso.»
É o consumidor que tem de tornar o mercado dos produtos biológicos interessante.
Por causa da exportação dos produtos da pecuária industrial e porque os danos não são taxados, a carne é vendida demasiado barata, cá e no estrangeiro. Por isso o mercado dos produtos biológicos não tem as mesmas oportunidades.
Só faz sentido combater a pecuária industrial a nível europeu ou internacional. Se um país acabar sozinho com a pecuária industrial, outro país ficará com ela.
Qualquer iniciativa unilateral e incondicional para acabar com a pecuária industrial diminui o sofrimento dos animais. Se os países também chegarem a acordo para limitar o comércio internacional de produtos de origem imoral, isso acabará com o sofrimento dos animais.
Se a pecuária industrial for proibida no nosso país, isso não significa que o estrangeiro siga o exemplo.
Não diretamente. Mas depois é possível exercer pressão moral de consciência tranquila. Quem exporta sofrimento animal faz como Frei Tomás: «Faz o que ele diz, não faças o que ele faz.»
Se nós não o fizermos, o estrangeiro fá-lo-á e ficamos para trás.
Se um país tem pressa em liderar com algo negativo, aumenta a probabilidade de os outros também se apressarem: é a espiral negativa. Quanto mais cedo começarmos com algo positivo, mais depressa os outros países sentem que estão atrasados nesse ponto. Assim criamos uma espiral positiva.

A lei, as autoridades e a religião

O nosso país é um exemplo em matéria de bem-estar animal.
Muitos países dizem isto de si próprios. Um país pode ter muitas regras contra o sofrimento animal sem que essas regras sejam suficientes. Aliás, foi preciso regulamentar o bem-estar animal precisamente porque muitos criadores tendem a fugir até às exigências mínimas.
A lei não proíbe a pecuária industrial, portanto é permitida.
Passo a passo, a pecuária industrial ultrapassou o limite do que é moralmente admissível. Combatê-la por via legal levará anos.
As autoridades estimularam a pecuária industrial no passado e os bancos concederam grandes empréstimos.
Correto. Isso torna as autoridades e os bancos responsáveis por amortecer as perdas e por remover os obstáculos ao fim progressivo da pecuária industrial. Uma política que se revelou pouco sensata pode sempre ser substituída por outra melhor (veja-se o abandono da energia nuclear na Alemanha).
Os criadores industriais têm direito à liberdade de empresa, tal como têm direito à liberdade.
Como a pecuária industrial viola o direito fundamental dos animais à liberdade, a sua atividade é ilegítima.
Na Bíblia está escrito que o ser humano é senhor dos animais e que os animais estão à sua disposição (o ser humano como administrador).
Em parte nenhuma da Bíblia está escrito que é permitido manter os animais nestas condições.
Se a investigação científica mostrar que o bem-estar não é prejudicado, podemos manter os animais presos.
A ciência não pode decidir se Deus existe nem se um direito é válido. A investigação científica não pode provar nem refutar direitos fundamentais.

O bem-estar dos animais

Os animais são bem tratados na pecuária industrial.
Dar aos animais comida e água suficientes não garante o seu bem-estar. Também não garante a sua liberdade (de ter um comportamento natural).
Na pecuária industrial tem-se o maior cuidado com o bem-estar dos animais.
Enquanto não puderem ter um comportamento natural, o bem-estar dos animais será sempre mínimo.
Os animais na pecuária industrial vivem melhor do que as pessoas que moram em apartamentos pequenos ou trabalham numa linha de montagem.
As pessoas podem escolher quanto tempo querem viver e trabalhar nestas condições. Os animais não têm escolha.
Os animais vivem melhor na pecuária industrial do que na pecuária biológica, onde andam no chão e adoecem mais facilmente.
  1. Também na pecuária biológica é melhor criar um número muito reduzido de animais. Se tiverem acesso a um prado que suporte o estrume, o risco de contaminação é insignificante.
  2. Na pecuária industrial usam-se grandes quantidades de antibióticos para prevenir doenças.
  3. Num ambiente natural, a doença é uma coisa natural.
Os animais vivem melhor na pecuária industrial do que em liberdade na natureza.
Basta abrir a jaula: um animal saudável foge para a liberdade. Prefere claramente a liberdade à certeza de ter comida.
Uma vida em liberdade na natureza também tem os seus inconvenientes.
Ninguém vai defender que se ponham predadores nos estábulos, que se baixe artificialmente a temperatura no inverno ou que se imponha um período de jejum.
Não se nota nos animais da pecuária industrial que lhes falte bem-estar: crescem bem.
Ninguém perde o direito à liberdade e a uma vida natural, nem a necessidade delas, por ter um aspeto «neutro» ou «bem tratado» ou por crescer depressa. Os frangos de carne crescem tão depressa que muitos morrem por isso.
Os animais da pecuária industrial são domesticados: estão habituados à presença humana.
Isso não significa que se sintam bem quando o seu espaço é extremamente limitado ou quando lhes é tirada qualquer possibilidade de comportamento natural.

O ambiente e o espaço

Os animais da pecuária industrial são alimentados com restos comestíveis que, de outra forma, teríamos de deitar fora ou queimar.
Há tantos animais que a maior parte da sua ração tem de ser cultivada de propósito, muitas vezes noutros países. Uma produção limitada e ecologicamente responsável, destinada só ao consumo nacional, também permite aproveitar todos os restos comestíveis.
Quem vive no campo tem de aceitar os incómodos da pecuária industrial.
Também no campo ninguém tem o direito de tirar a liberdade aos outros (pessoas ou animais). Ar, terra e água limpos são um direito de todos e um dever para quem vive no campo.
No nosso país o solo é caro e a pecuária industrial usa menos solo do que a pecuária ecológica.
O solo é usado noutro lugar, para cultivar a ração dos animais. Poupar espaço nunca pode justificar a violação dos direitos fundamentais dos animais, sobretudo quando grande parte da produção se destina à exportação de carne e lacticínios.

Leia também: Os piores abusos da pecuária industrial; O que pode fazer contra a pecuária industrial.

Que falácia é esta? Jogue

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Dez frases sobre animais que se ouvem muitas vezes. Consegue reconhecer a falácia? Depois de cada resposta lê porque é que o argumento não se sustenta.

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Este artigo faz parte de uma série sobre falácias e demagogia

Alguns argumentos são usados com frequência, mas não são válidos. Usam-nos tanto os defensores como os opositores. Chamam-se argumentos falaciosos, ou falácias.

Cada argumento vem acompanhado da nossa resposta. Assim a discussão fica mais clara e mais honesta.

Há vários tipos de argumentos falaciosos. Algumas falácias são usadas de propósito, outras por engano. Por isso convém prestar atenção aos princípios e à honestidade de quem está do outro lado da discussão.

Veja também como reagir quando outras pessoas tratam mal os animais.

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