Animais e pessoas como escravos modernos

Escravatura moderna no estábulo

Antigamente os europeus (entre eles portugueses e neerlandeses) levavam africanos escravizados para longe, para trabalharem nas plantações. Hoje em dia, nos países mais pobres, há pessoas que trabalham por iniciativa própria para empresas ocidentais. São seduzidas a não produzir alimentos para o mercado local, mas sim forragens para a pecuária industrial dos países ricos. O Brasil, por exemplo, é o maior exportador de soja do mundo. Essa soja é vendida sobretudo à China e à Europa, onde serve em grande parte de ração para porcos e galinhas.

Ao mesmo tempo, os animais da pecuária industrial são espremidos e explorados como escravos "modernos", de forma tão desumana como os "velhos" escravos humanos e tão invisíveis como eles.

Doutrina económica e dívida

Os ocidentais abandonaram as antigas colónias, mas os seus investimentos mantiveram-se. Um país em desenvolvimento pode libertar-se da dívida se estiver disposto a produzir para o Ocidente. Os países mais pobres estão assim sob o feitiço das nossas crenças económicas: produz e enriquecerás e, em seguida, serás "livre".

navio negreiro

A argola do escravo do passado foi substituída pela trela da nossa doutrina económica

Funciona de forma simples, tal como no próprio Ocidente: como quem agita uma salsicha diante do nariz, sugere-se que é possível enriquecer depressa. Os países mais pobres têm apenas de produzir forragens. O reverso da medalha é que a economia local é perturbada e as pessoas no próprio país pouco mais têm para comer ou são forçadas a destruir mais um pedaço de floresta tropical para se alimentarem. Assim, os países mais pobres não só vendem ao desbarato as suas matérias-primas, como perdem também o seu próprio mercado.

O Ocidente transforma de forma barata esses materiais em produtos e em seguida lança esses produtos nos mercados dos países mais pobres. Isto é muito semelhante à situação dos operários das fábricas no século XIX, que trabalhavam por um ordenado de miséria e que também eram obrigados a comprar na loja da direção da fábrica.

Quando os países mais pobres protestam que são vítimas de concorrência desleal, os governos ocidentais propõem reduzir os obstáculos à importação. Mas a situação é muito mais afetada pelos subsídios à exportação que esses governos concedem aos seus empresários, à custa dos próprios contribuintes.

A automatização aumenta a produção e torna-a mais barata

A pecuária industrial já não depende dos fatores que antes obrigavam o agricultor a trabalhar em pequena escala: graças à automatização, o agricultor tem tempo suficiente para criar grandes quantidades de animais. Vive frequentemente noutro lugar, de modo que ele e a sua família não são constantemente lembrados, pelo cheiro e pela fealdade dos edifícios, da forma lamentável como o dinheiro é ganho.

Também há pouca ou nenhuma necessidade de pagar a trabalhadores exteriores na empresa. Os bancos participam no financiamento dos grandes estábulos. As empresas de rações ajudam a construir os estábulos e asseguram o fornecimento de forragem. O criador industrial necessita apenas de encontrar um destino para o escoamento do estrume. Este é muitas vezes injetado nos solos com enormes máquinas, o mais rapidamente possível.

O mercado da carne expandiu-se a quase todo o mundo. É como se fosse uma nova forma de colonização. Apenas quadros jurídicos sob a forma de licenças podem, por vezes, bloquear a expansão desenfreada (aumento da escala de produção).

Ninguém pode constatar e ver com os seus próprios olhos os abusos na pecuária industrial

O público, devido ao caráter fechado da gestão da empresa, não pode ver o que se passa nos bastidores. Protestos contra possíveis abusos dificilmente são de esperar. Típico é que os modernos criadores industriais frequentemente têm no jardim da frente cabritos ou porquinhos a correr para mostrar à própria família e ao mundo exterior como a criação de gado pode ser "divertida e inofensiva". Isso desvia a atenção do feio negócio que se faz por trás.

Muitas das mudanças têm uma componente positiva: muito trabalho pesado já não é necessário. Infelizmente, a energia libertada não é utilizada para um objetivo positivo, mas sim para fazer ainda mais dinheiro. Um pequeno grupo pode lucrar diretamente. O público em geral beneficia indiretamente, com a carne fácil e barata.

Ganância, facilitismo e ostentação (pense-se nos animais exóticos) fazem os animais da pecuária industrial gemer sob o jugo da escravatura moderna. Foram eles os perdedores na atual forma de criação de animais. Em troca de cuidados bons mas totalmente focados num rápido crescimento sem problemas, não lhes resta nada mais do que tédio, à espera do abate. Tudo o que possa reduzir o lucro fica por fazer. Ao animal não resta senão uma vida vazia.

Crítica à nossa sociedade

É evidente que esta descrição configura uma crítica à nossa sociedade. Também os animais, os escravos modernos, têm direito à liberdade. À liberdade da qual o produtor em regime de pecuária industrial abusou para construir o seu império. A liberdade de que se abusa para destruir a liberdade dos animais deve ser limitada, senão a liberdade transforma-se no seu oposto. Não são de esperar revoluções da parte dos animais, mas haverá cada vez mais escândalos como hormonas prejudiciais, bactérias resistentes, dioxinas, BSE e pestes suínas. A tarefa de delimitar pertence a todos: autoridades, consumidores, produtores, bancos e empresários. Antigamente ouviríamos apelos a mais solidariedade com os mais fracos.

Isto não chega para ajudar os animais, porque a responsabilidade está distribuída por demasiados participantes. É fácil fugir às responsabilidades. Os animais não podem lutar pelos seus direitos. O consumidor queixa-se "não tenho tempo para ir comprar carne de produção biológica e/ou é demasiado cara" e juntamente com o produtor alega que "as autoridades é que deviam proibir a pecuária industrial". Uma eventual melhoria das condições de vida dos animais na pecuária industrial só avançará lentamente por causa destas circunstâncias.

As pessoas na nossa sociedade só querem ter um mínimo de restrições impostas de fora. E com boas razões. Uma sociedade só pode funcionar quando é constituída por indivíduos que se comportam de forma responsável, mesmo quando não estão a ser controlados. Por exemplo: deixar de comer os animais da pecuária industrial, deixar de caçar animais selvagens por prazer e deixar de misturar substâncias nocivas nas forragens.

A solução

A solução reside na própria atualização da nossa liberdade (íntima) na nossa sociedade. Isto significa que a liberdade do homem que tem implicações para o animal deve ser regulada em todas as suas facetas:

  • Deve ser delimitada (acabar com as importações de rações e de animais exóticos para estimação; dizer não à exportação de produtos animais).
  • Deve ser concretizada (a liberdade de movimento mínima que um animal deve ter).
  • Deve ser acompanhada e controlada (a liberdade do agricultor termina onde a liberdade do animal começa).
  • Deve-se pôr fim aos subsídios às indústrias que concorrem deslealmente ou que prejudicam a natureza.
  • As pessoas deveriam libertar-se de todos os tipos de situações que criam dependências e que as impedem de ver as consequências do seu comportamento e de o melhorar em relação aos animais.

As nossas motivações humanas são em grande parte determinadas pela economia. Por isso, também são precisos instrumentos económicos para estabelecer limites, enquanto os fins e os meios são os de aumentar a liberdade para tantas partes quanto possível.

A pecuária industrial deveria ser economicamente pouco atraente e a pecuária biológica e ecológica deveria ter uma oportunidade justa. Assim é dada uma interpretação positiva da liberdade e estimula-se a melhoria da condição e do estatuto do animal.

Leia também: A liberdade é um direito básico dos animais; Recompense comportamento amigo dos animais; Os piores abusos da pecuária industrial.

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